Aquela caixa gigante chegou aqui eram quase dez da manhã. Tudo bem que eu já estava acordado, mas ainda assim, é de geral consenso que aos domingos não se incomoda uma pessoa antes do meio-dia. Olhando o display digital na porta, vejo a silhueta marrom avermelhada do pacote de papelão quase da altura de um ser-humano, sobre um carrinho que flutuava silenciosamente cinco centímetros acima do chão. Ainda sem saber do que exatamente se tratava, deixei que a pequena prancha deslizasse para dentro, e depois de preencher e assinar o formulário (um questionário num tablet da fine line de 10 polegadas, algo chique demais para uma agência de correios, na minha opinião), foi-se deixando apenas a entrega para trás.

Notei a impressão em vermelho na parte de trás, que estava virada para a parede do corredor antes, e imediatamente soube o que havia dentro daquela caixa. A descoberta me fez querer devolver a encomenda logo em seguida, voltar para o quarto e ficar lá por mais uma semana, mas não ousaria fazer essa desfeita para com meu querido irmão, que me enviara o presente de tão longe. Naquele momento tive que tomar uma decisão, já que não mandaria de volta: ficar com ela ou mandar entrega-la na outra ponta do país? A segunda opção geraria muita dor de cabeça desnecessária, e eu sou completamente a favor da ideia de evitar dores que podem ser evitadas, mas tomar para mim geraria gastos a mais, e eu também não gosto muito de ficar gastando tanto. Meu dilema real era entre viver pensando no problema ou remexer na fonte de todos eles

Fiquei postergando essa escolha durante boa parte da tarde, enquanto arrumava algumas coisas no segundo quarto, que já estava praticamente implorando por uma faxina e eu evidentemente negligenciei os berros do pobre coitado. Nada do que eu fiz naquele cômodo parecia certo, aliás, nada que fiz naquele dia teve impacto positivo na minha alma. Essa sensação é velha conhecida. Normalmente se apresenta na forma de um desconforto quase imperceptível, só o bastante para não me deixar esquecer que algo está errado (sempre deixando de me revelar o que exatamente está fora do lugar), mas quando volto a memórias do passado as quais não tenho nenhuma vontade de manter, tudo de ruim que me fizeram passar – ou eu mesmo me fiz passar – ficam ribombando na minha mente, tal qual um segundo coração cheio de remorso, incertezas e receios. O telefone tocou às cinco e meia, era meu irmão. Deixei tocando por alguns segundos, antes de mandar um envergonhado “E aí? ”.

— Fala, irmãozinho! – Disse ele, animado como sempre, apesar de estar aonde estava. – Receberam meu presente?

Talvez eu não tivesse percebido o erro na última frase, estava treinando meu cérebro para ignorar qualquer plural indesejável, técnica esta que se provaria infrutífera em breve.

— Recebi, sim. Aliás, chegou hoje de manhã.

— Ah, sério? Queria que tivesse chegado na data certa, já que não pude comparecer ao casamento do meu maninho. E aí, gostaram?

—É que eu ainda não abri. A caixa é grande, então vai demorar um tempo pra montar. Quando tiver pronta eu mando um 360 pra você.

— Sem problemas…. Me conta como é que foi o grande evento. Conte tudo e não esconda nada.

— Foi bem, eu acho. – Minha mente estava numa busca dolorosa por palavras que pudessem descrever aquele dia. – Muito bonito. Tiramos muitas fotos e gravamos um montão de vídeos.

No momento, eu realmente achei tudo muito bonito, não me importei com as fotos nem com o vídeo. Afinal, o que poderia ser melhor do que ter todos aqueles que eu amo próximos a mim (salvo a exceção do meu honorável irmão militar) para celebrar a união de dois espíritos?  O problema veio depois disso.

— Eu quero ver tudo isso, hein? Não esquece de enviar uma cópia pra mim, que quando tiver um tempo, eu assisto.

— Falando nisso, eu pensei que você ligaria antes.

— É que a missão demorou um pouco mais do que deveria, e como se isso não bastasse, amanhã de manhã já saio em outra sem nem saber se concluí o que tinha que fazer. Eu talvez tenha um tempo mais longo daqui um mês ou dois.

— Que falta faz um avião, né?

— Nem me fale… – Houve silêncio, algo estranho entre nós, pois como nos falávamos pouco, nunca faltava assunto, por mais avesso que eu seja a falar muito ao telefone.

Talvez ele tivesse percebido algo diferente durante a nossa conversa;

— Você parece triste. Mais que o normal, digo. – Sim, ele tinha percebido – Aconteceu algo?

— Não é nada, só aquela melancolia de sempre. Não precisa se preocupar comigo, ok?

— Tudo bem, mas você sabe que não precisa esconder nada de mim, certo?

— Eu sei. Mas realmente, não é nada de mais. Pode ficar tranquilo.

— Ok, irmãozinho, a gente se fala em um mês.

— Isso se você estiver vivo daqui um mês.

Ouvi sua gargalhada abafada antes do som da ligação ser encerrada. Senti meu espírito mais leve, mesmo tendo omitido grande parte dos eventos pós casamento. Estranhamente, me pareceu natural ficar com o presente.  Era como se eu estivesse recebendo-o pelo natal ou aniversário fora de época, e pensando bem, por que eu daria um presente do meu irmão para ela, uma vez que minha relação com ele foi um dos grandes motivos para o que veio depois? Ainda bem que não mandei. Me arrependeria amargamente dessa decisão (mais um prego nesse caixão de ressentimento que construo para mim mesmo todos os dias).

Em três horas a cama mais tecnológica em que já dormi estava pronta. Era o modelo S5 da Space Bed, uma verdadeira máquina de dormir, com a adição de uma tela translúcida que pega sinal de tudo e com mil entradas de cabos. E tudo isso num tamanho King Size (agradeci imensamente à memória do meu pai, por ter pensado em tudo ao deixar esse apartamento para mim, mesmo sabendo que ele não tinha como prever esse cenário específico).

Coloquei num canal aleatório e me deitei na cama nova. Os pedaços do velho leito colocados próximos a parede, eu lidaria com eles no dia seguinte… ou não.

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