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No bairro central da cidade, onde uma passarela se estende sobre a rua mais movimentada, centenas de pessoas passam todos os dias. Adultos, crianças, senhoras e moças, todo tipo de gente cruza a passarela, indo ou voltando. Certo dia, em meio a essas centenas de pessoas, duas delas agem de forma peculiar: uma mulher de vestido cor de rosa, desalinhada, que cambaleava enquanto caminhava, e uma criança sendo levada por ela.

— Mamãe, onde estamos indo? – o garoto perguntou, amavelmente, enquanto era levado por sua mãe, que o segurava pelo braço apertando firmemente.

— Calado! – A mulher rosnou, entre dentes, tirando fios de cabelo da frente do rosto com a mão livre.

O suor corria frio sobre seu rosto abatido e insone, mas Jennifer seguia firme, tropeçando aqui e ali, enquanto caminhava pela passarela amarela. Eles andaram até o meio da ponte, onde Jennifer encostou no parapeito e olhou para a rua movimentada abaixo. Pegou o garoto pela cintura, e o ergueu até que ele ficasse de pé sobre o parapeito, seguro apenas pelas mãos da mãe.

As pessoas que caminhavam pela passarela olhavam desconfiadas, mas nenhuma delas parou ou sequer cogitou o que realmente estava acontecendo naquele lugar, e mesmo que tentassem, por mais que o fizessem, jamais descobririam a verdade.

— Mamãe, eu estou com medo… – disse, olhando pra baixo, e com os olhos lacrimejando.

— É melhor que esteja mesmo! – as mãos trêmulas largaram a criança, deixando a gravidade fazer seu trabalho, levando o pequeno corpo a entrar em choque com a van branca que passava exatamente naquele momento.

A mulher ficou ali até a polícia chegar ao local e levá-la…

***

A sala era pequena, continha uma mesa metálica retangular e uma cadeira em cada lado maior, numa das quais Jennifer estava sentada, algemada. As mãos sobre a mesa, arranhando o metal com as unhas compridas (as que não estavam roídas, pelo menos), num movimento de vai e vem constante e nervoso. A boca trêmula, os olhos vidrados, com olheiras imensas, o rosto pálido com suor congelante descendo e os cabelos desgrenhados desenhavam a aparência daquela pessoa transtornada.

O policial entrou pela porta, acompanhado de outro homem, que carregava consigo um caderno de notas e uma caneta. Em seguida o policial saiu, fechando a porta atrás de si, deixando-o e Jennifer a sós. O homem que ficou para trás andou até a cadeira vaga, tirou seu casaco e pendurou no encosto, e sentou-se, colocando entre si e Jennifer o caderno.

Era um homem forte, a camisa se dobrava sobre sua musculatura, a gravata completamente preta, sem qualquer desenho ou motivo, o reflexo da luz no que parecera ser um colar, os cabelos alinhados e brilhantes, o rosto centrado observando e a postura imponente compunham o que era o investigador David Assis.

David ficou olhando para Jennifer por cerca de um minuto, e nesse tempo ela executou incontáveis vezes os mesmos movimentos que fazia desde que fora colocada na sala, meia hora antes.

— Bem… – pausou por alguns segundos, esperando que ela completasse sua frase, mas quando o complemento não veio, o investigador continuou – Jennifer… Importa-se de dizer o que a levou a jogar uma criança do alto da passarela central?

A ré ficou reticente por um tempo, apenas olhando e roendo as unhas, até que David repetiu a pergunta, e ela respondeu:

— Ele é meu filho… Ou era, pelo menos.

— Por que você “teve” que assassinar seu próprio filho?

Jennifer se inclinou para frente, com as palmas das mãos sobre a mesa, os olhos ainda vidrados pouco piscavam, e a boca trêmula parou para indagar:

— Ele está… Morto mesmo?

— Sim, senhora, seu filho está morto, e você causou isso.

— Ótimo! – exclamou sem hesitar, recostando-se novamente na cadeira.

David levantou e saiu, pouco depois veio o policial e levou Jennifer embora da sala, para uma cela, onde ela permaneceria indefinidamente.

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