Eu andava pela rua apressado naquele dia, talvez mexendo no celular, já nem lembro, mas o que eu lembro bem, é que esse dia me tirou tudo e ainda mais.

Era um dia de inverno, eu vestia roupas quentes e grossas, lembro bem que mesmo assim ainda sentia o sabor do frio no corpo, eram compradas no cemitério das roupas, então já era de se esperar que não servissem mais direito (os invernos ficavam mais frios a cada ano, mas ainda não eram frios como os invernos de cem anos atrás, nós estávamos retornando ao normal do planeta naquele tempo). Eu gostava de inverno, na verdade, e me arrependeria amargamente disso este dia. Lembro que estava atrasado para a entrevista de emprego mais importante da minha vida, acho que era um dos ex colegas de faculdade do meu tio ou algo assim, mas eu caminhava a passos nervosos, esboçando um começo de corrida.

Não estava realmente atrasado, restava coisa de meia hora para começar, mas as filas no S.M.I.T. eram sempre tão grandes que raramente a gente demorava menos que trinta e cinco minutos para conseguir acesso às cabines, e quando finalmente consegui vê-las, já haviam se passado três minutos do horário marcado. Eu estava completamente perdido, mas ainda poderia dar a desculpa das filas e com sorte ele compraria (essas pessoas ricas que têm auto-carros sempre esquecem que a galera usa transporte público).

Cheguei na cabine dois minutos depois de decidir como tentaria contornar o meu atraso. Esta, em particular (a do meio numa fila de nove cabines), tinha umas manchas que pareciam ser de doce ou algo do tipo bem próximas do menu interativo. Fiz algum esforço para ignorá-las (sim, sou dessas pessoas que tem nojinho das coisas), inseri meu vale-transporte e a tela se acendeu. Digitei a estação desejada, “enter”, e a porta à esquerda se abriu. Sem olhar, atravessei o portal e me perdi para sempre.

Instantaneamente senti a lufada de vento gelado que me atingiu. A temperatura estava pelo menos vinte graus abaixo do que experienciava segundos atrás, mas isso nem era o mais assustador de tudo. Olhando em volta, me vi cercado por uma paisagem quase completamente branca. A neve cobria as copas das árvores na mata ao longe, rochas sobresaltadas do chão também tinham sua capa alva, meus pés afundavam no chão quando eu me movia, e o céu estava cinza, derramando flocos de neve como água na chuva. Logo meu rosto começou a doer, juntamente com os dedos das mãos e dos pés.

Incerto do que havia acontecido, saquei meu celular do bolso, tremendo. Estava sem sinal, e isso era estranho, pois esse problema de rede já tinha sido reparado há anos, depois de terem aperfeiçoado a tecnologia de portais. Comecei a andar, da melhor forma que se pode caminhar na neve usando tênis, na direção da mata próxima. Depois do que pareceram dez minutos (que na verdade foram só seis), meus lábios já estavam terrivelmente ressecados, eu estava ofegante e cansado pelo esforço de me locomover.

As roupas não estavam dando conta do frio intenso, as luvas idem, e os tênis nem se fala. Eu estava estropiado e nem tinha alcançado a entrada da floresta, mas continuei andando. Finalmente consegui chegar onde queria, pensando que talvez as árvores quebrassem um pouco do vento e ficasse um tico mais quente. Eu só estava meio certo, porque o vento realmente parou de me açoitar, tal qual um senhor ao seu escravo, mas o frio não diminuiu nada. Resolvi me sentar numa área sem neve, encostado a uma árvore, para tentar botar minha cabeça em ordem.

— Certo — comecei, falando para ninguém — eu passei por aquele portal, mas por alguma razão estou num deserto gelado e isolado. Deve ser alguma coisa psicológica, devo ter batido com a cabeça em algum lugar, talvez até tenha tropeçado na rua e tudo isso seja coisa da minha imaginação — Tentei me convencer disso por alguns minutos, mas sendo imaginação ou não, eu estava congelando, e escurecia rápido.

Até ali (por incrível que pareça), estava tudo bem, mas em algum momento eu sentiria fome, e esse momento chegou rápido. Procurei debilmente por algum petisco ou equivalente em meus bolsos, mas não encontrei nada.

“Maldita semana de início de dieta”.

Desolado por não achar sequer um papelzinho de doce nos bolsos, e como todo jovem criado num mundo onde comer era a principal atividade do dia, resolvi desistir e me entregar a morte. Estou exagerando aqui, eu não era tão derrotado assim, quando era menor até ia nas aventuras de caça com o meu pai de vez em quando, fazia uns exercícios e tal, mas sim, dei uma afrouxada faz um tempo. Aproveitando que mencionei caça, devo dizer que nunca curti armas de fogo, e também não era chegado em arco e flecha ou lanças (tinham uns colegas do meu pai que gostavam de fazer do jeito antigo), é meio injusto com os animais, eu acho, eles nem podem se defender.

Enquanto eu ficava lá sentado sentindo a temperatura me matar, um barulho estranho me chamou a atenção. Quando olhei na direção do som, não vi nada além de árvores e neve, mas observando por mais tempo, percebi algo na neve, um animal que parecia ser bem grandinho estava encostado numa árvore a uns quinze metros de mim, ganindo de vez em quando. Claro que tentei me aproximar do bicho para ver o que era. Primeiro tentei levantar, sem sucesso pois quase não sentia as pernas, dormentes pelo frio, então fui engatinhando mesmo, o que aliás foi uma ideia terrível, minhas mãos doíam terrivelmente quando fiquei perto o bastante para ver que era um lobo, o maior que já havia visto até então, e estava mortalmente ferido.

Ele tinha um rombo no tórax suficientemente grande para deixar as costelas à mostra, a quantidade de sangue era enorme também, e grande parte já estava congelada e escura, formando uma crosta endurecida nos pelos brancos e um borrão no chão. Observei mais um pouco, não notei nenhum tipo de ferimento nas patas e o focinho estava manchado de sangue.

— Pelo menos pegou um deles — eu disse, tentando reconfortar mais a mim do que ao lobo (já não entenderia nada da mesma forma)

O lobo estava ganindo ainda, e respirando com muita dificuldade, praticamente implorando para que algo acontecesse, algo que eu não faria, pois com a minha forma física seria mais doloroso que libertador para ele, decidi não tocá-lo. Percebi que havia um rastro de sangue, denunciando o caminho de sofrimento que o animal teria feito, e resolvi seguí-lo. Eu esperava encontrar pessoas no fim do rastro, mas tudo o que vi foi um urso, pelo menos duas vezes maior que o lobo (que já era quase do tamanho de um garrano), com o pescoço dilacerado e a barriga completamente aberta, com as entranhas congeladas para fora, parecendo serpentes rosadas de pedra.

O frio começou a apertar mais, cada segundo deixava a noite mais perto, e com ela outros animais poderiam aparecer (eu realmente não iria gostar disso). Meu celular vibrou no bolso, e quando peguei para verificar, alguém tinha me enviado um e-mail e isso significava que eu poderia usar o GPS para saber onde estava e assim poder pedir ajuda.

Foi o que fiz, acionei o GPS e segundos depois a tela me disse algo impossível: 23° 32′ 56″ Sul, 46° 38′ 20″ Oeste, ou seja, São Paulo. Certamente o negócio estava errado, porque não dá pra ficar nem um minuto em São Paulo sem ver um prédio sequer, e tem a questão da neve e do frio excruciante também. Tentei novamente, mesmo resultado. Finalmente decidi ligar para alguém: meu pai, que atendeu no sexto toque, e meio puto porque aparentemente eu estava três horas atrasado para a minha entrevista. Comecei a dizer o que estava acontecendo e ele achou que era alguma brincadeira, desligou e não atendeu mais depois. Inclusive ninguém atendia minhas ligações, e quando tentei pedir ajuda, ligando pro resgate ou algum órgão similar, acharam que era trote.

Eu teria que me virar se quisesse chegar até uma cidade (o que demoraria uma porrada de tempo, porque a imensidão branca, tal qual o reino de Simba, ia até onde a vista alcançava). Estava cansado pelo esforço de andar até ali, e certamente não iria voltar, então dei uma fuçada na internet em como fazer uma fogueira (eu devia saber, já que ia caçar com meu pai, mas fazia muito tempo, eu esqueci), baixei alguns textos sobre sobrevivência na floresta também, mas nada falava sobre como lidar com hipotermia. Daí eu lembrei de um filme onde alguém, num lugar de gelo, vai pra dentro de um animal morto pra não morrer de frio, e logo eu rejeitei essa ideia. Possibilidades muito remotas de eu ir pras entranhas daquele urso, nã-ãh.

Comecei a procurar madeira e folhagem seca (no meio da neve) no chão, que servisse pra fazer uma fogueira, conforme li nos textos, e meia hora depois estava eu, sentado na neve, friccionando gravetinhos molhados com o gelo derretido sobre umas folhagens igualmente molhadas. Depois tentei a técnica das pedrinhas, batendo uma na outra, gerando faíscas, mas que não adiantavam muita coisa já que a folhagem, como eu disse, estava úmida. Finalmente percebi que estava usando um casaco com capuz felpudo. Arranquei um tufo dos pelinhos no capuz e tentei novamente, dessa vez com sucesso, e uma chama se iniciou, mas uma lufada de vento a apagou. Lá fui eu novamente, dessa vez fui mais cuidadoso e consegui manter a chama acesa por mais tempo, conseguindo inclusive começar a fogueira.

Devo dizer que não adiantou muito, e a fogueira pareceu mais com uma lanterna crepitante, calor que era bom, nada. Aproximei minhas mãos o máximo que pude do fogo, e só minhas mãos ficavam quentes, meu corpo sofria a cada mordida do vento gelado, e ainda estava com fome. Eu olhei para o corpo do urso ali do lado, com nacos de carne pendendo para fora. Como estava usando luvas, o tempo para decidir comer o animal ou não foi relativamente curto, e alguns momentos depois eu estava segurando um galho com um pedaço de carne na ponta sobre o fogo.

Já alimentado, restava a questão do frio. Não tinha jeito, depois de duas horas enrolando e enganando a mim mesmo, cedi e fui pra dentro do urso, pondo de lado todas as minhas definições de dignidade. Era bem quentinho ali, confesso, mas extremamente nojento também. Lembro que fiquei ali por um tempo pensando em nada, e depois adormeci.

No dia seguinte acordei com o fedor do cadáver me impelindo a sair de perto dele. Segundo meu celular (que desliguei, para que a bateria durasse mais), eram quase onze da manhã. Resolvi procurar mais alguns textos de apoio para a “aventura congelante” que teria pela frente, e descobri que precisaria de facas, armas de caça (não dá pra ficar comendo frutas eventuais e esperar outros animais fazerem o trabalho) e outras coisas que nenhum dos apresentadores de programas de sobrevivência da tevê a cabo mencionam, além de roupas quentes, claro.

A primeira coisa que tive de aprender a fazer foi uma faca de osso, usando o material fornecido pelo nosso amigo Pimpão deitado ali do lado, o que não saiu muito bem pois eu não tinha expertise nenhuma em artes manuais. Usei um cadarço do tênis para atar um dos dentes do bicho num pedaço de pau. Depois do fracasso, resolvi mudar de atividade, e tentar arrancar um pouco de couro do urso pra me cobrir (não era uma roupa decente, mas teria que servir). Para tal, tive que tirar umas garras das patas dele, já que o dente não se provou muito eficaz.

Saltando algumas horas no tempo, eu já tinha em minha posse um retângulo de couro e pelos, uma faca de osso muito mal feita e uma garra. Olhei para minhas “armas” com mais atenção, e decidi que não gostava delas. Resolvi aprender a moldar essas garras de forma a conseguir manuseá-las mais facilmente, e mais de uma por mão, como o urso faz (pra ser sincero, eu queria mesmo era ficar igual a um personagem que eu curtia bastante). Mais algumas horas depois, consegui atar duas garras em cada luva, usando os cadarços e furos nas costas delas. Arranquei mais uns pedaços de carne do urso, prendi em outras tiras de couro para garantir que não precisaria matar nada nos próximos dias.

Quentinho e preparado, comecei a caminhar. Como nada de interessante aconteceu nos primeiros dias, eu só andei, fiquei me abrigando em cavernas e fazendo fogueiras. Até aí estava tudo bem (ou quase), só que a carne acabou, e eu precisava ir atrás do que comer. Tive sorte de ver que havia um tráfego frequente de animais pela Floresta Nevada (eu tinha que dar nome pras coisas, se não eu ficaria perdido), então coloquei minhas luvas e fui pro mato.

No começo, tentei uma aproximação direta, esperando os bichos ficarem na minha frente, mas obviamente não deu certo, e recorri ao meu celular (que já tinha menos da metade da carga). Como não sabia ou tinha os materiais necessários pra confeccionar uma corda, subi numa arvore mais baixa e esperei. Quando uma lebre estava desatenta logo abaixo, caí sobre ela como um relâmpago atinge o solo. As garras de urso apontadas para o corpo pequeno durante a queda atingiram em cheio as costas da criatura, me garantindo mantimentos para dois dias. No decorrer das semanas eu fui ficando melhor nas atividades do dia-a-dia de um selvagem, enquanto fazia meu caminho por esse lugar quase inóspito.

Depois de quase um mês, quando já havia abandonado meu celular em alguma caverna ou árvore lá pra trás, eu tinha me instalado numa caverna na outra ponta da Floresta Nevada, cuja saída dava para uma planície branca, e montanhas negras ao fundo. Quando acho que não existia nada ali além de lebres, um mamute passou uns vinte metros ao longe, saído de trás de uma cadeia de rochas. Eu nunca tinha visto um (aliás, ninguém nos últimos dez mil anos tinha), e se eu já estava me acostumando à ideia de ter me perdido no espaço por falha no portal, agora nem sabia mais de nada.

Fiquei um tempão olhando o paquiderme passear pela planície sozinho, pouco depois vieram mais quatro do mesmo lugar. Vi os pelos manchados aqui e ali de branco pela neve, tremulando conforme o vento passava por eles, e a trilha de pegadas fundas que faziam ao caminhar, então retornei para dentro da caverna, onde fiquei até o dia seguinte tentando me convencer de que era um engano.

Depois de mais certo de que estava ficando doido aos poucos, saí para continuar meu caminho. O céu estava escuro, como em todos os dias desde que cheguei ali. Continuei andando para o que eu imaginava ser o norte, talvez encontrasse alguma pessoa ou cidade depois da Planície dos Mamutes, mas nada. Não encontrei uma caverna para passar a noite, mas tinha minhas peles quentinhas e bastava acender algumas fogueiras para os animais ficarem longe durante a noite.

Era madrugada, o breu da noite tomava conta de tudo fora do raio das fogueiras quando eu ouvi uns barulhos estranhos. Meu sono tinha se tornado muito leve naqueles tempos, e foi isso que me salvou do ataque de um tigre grotescamente grande, que veio de sei lá onde, mas não me acertou por pouco na primeira investida. Só que eu não tive tanta sorte assim nas outras vezes.

O animal, que não tinha medo do fogo, pulou sobre mim, desviei mas não adiantou de muita coisa, pois a pata esquerda dele acertou meu rosto, tirando filetes de sangue por onde as garras rasparam. Estava com as luvas colocadas numa bolsa que fiz com a pele da primeira lebre que consegui caçar, não daria para pegar sem me arriscar. Peguei um pedaço de madeira da fogueira, e comecei a urrar e balançar o toco em chamas na direção do tigre, que se assustou e recuou um pouco, o suficiente para que eu pudesse alcançar a bolsa com as luvas. Quando estava tirando-as de dentro, mais uma investida, e caí.

As garras fincadas profundamente no meu braço direito me anestesiaram por um segundo, foi quando meus reflexos agiram e perfurei um olho do tigre, que caiu em cima de mim, com todo o peso, quebrando alguns ossos do meu corpo. Eu estava bem ferrado quando consegui me arrastar para fora. Provavelmente quebrei uns ossos nas pernas, não teria como precisar onde mais porque tudo doía.

Perdido na era do gelo, nem era um jeito tão ruim de morrer, afinal. Mas se um humano usando, sob peles de urso, roupas do século XXI fosse encontrado, acho que eu ficaria sabendo no meu tempo, seria um big deal, acho.

Fiquei morrendo até de manhã, foi quando ouvi um som extremamente alto, o suficiente para que os pássaros revoassem. Era uma sirene bem alarmante, aquela. Me arrastei como pude, juntando todas as minhas forças (que nem era tudo isso), consegui percorrer algumas centenas de metros, até chegar numa borda, onde rocha se transformava numa muralha, onde eu estava não era uma planície, mas sim um planalto imenso, e logo abaixo, ruínas que se estendiam por todo o campo visível. Prédios caídos, restos de estruturas, e o que lembrava muito um Servidor Estadual, que mesmo destruído era gigante, ao longe.

A perspectiva era essa: Eu minúsculo, deitado sobre a neve na borda de um planalto, provavelmente cercado pelo que sobrou da civilização naquele lugar que um dia fora São Paulo. Eu não estava na Era do Gelo, mas sim, no futuro, e ele era terrível.

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