Daniel Den’eu era um jornalista investigativo de sucesso, viu sua carreira ascender com apenas 23 anos de idade, venceu prêmios internacionais com suas matérias, sendo a mais relevante delas intitulada “Portais: Nossa salvação ou o Fim dos Dias?”, porém, um ano antes de publicar o que seria seu último artigo, estourou um escândalo envolvendo um caso seu com a atriz de segunda classe chamada Mary Dex enquanto este ainda estava casado com a também jornalista Helena Salvan, levando sua reputação para a vala. Seis meses depois do frisson das notícias, Daniel se encontrava indo frequentemente a bares e casas de jogos, lugares que apenas frequentava com o intuito de conseguir informações.

Estava sentado num dos bancos em frente ao balcão, com os cotovelos apoiados na madeira, cercando com os braços cruzados um copo americano com apenas algumas gotas do Uísque que outrora transbordava do recipiente e agora estava pela metade dentro da garrafa.

O barman passava um pano de tecido áspero e de aparência poeirenta sobre o tampo do balcão quando um homem adentrou no estabelecimento. Ele vestia sobretudo cinza, cobrindo um traje social bem acabado, os sapatos lustrosos e a aparência asseada indicavam claramente que ele não deveria estar ali, pelo menos não de propósito, foi o que Daniel pensou quando o viu, mas ele também já se vestira assim no passado, as coisas mudam. O olhar do homem bem vestido percorreu o ambiente várias vezes, indo e voltando, como quem procurava algo ou alguém perdido, até que encontrou-se observando um homem barbado, com tatuagens de moto clube no braço esquerdo, que tomava cerveja numa caneca de vidro. Este disse quando notou que estava sendo visto:

— Quê que é, florzinha? Tá perdido? Pois se estiver, o banheiro fica logo ali atrás –apontou para a porta que ficava a não mais de um metro de Daniel–, um merda como você deve gostar do que vai ver.

Todos que compartilhavam da mesa com o motociclista riram alto, batendo com as canecas no tampo. O homem continuou a olhar em volta. Daniel estava tomando uma dose de uísque quando seus olhos encontraram com os do homem, e por um segundo Daniel pensou que as íris dele haviam saltado do azul suave que eram para um tom castanho meio esquisito, como os seus próprios, e de volta ao azul. “Acho que esse é o sinal que eu já bebi muito”, pensou, “ótimo”, e tornou a encher o copo. Qual não foi sua surpresa quando o homem veio caminhando em sua direção. Ele sentou-se no banco ao lado e pediu cerveja. O barman estava trazendo o copo quando o homem puxou assunto com Daniel.

— Dia difícil, né? — e deu um risinho tímido.

Daniel olhou de soslaio para ele enquanto bebia, parou no meio do gole, pousou o copo no balcão e esticou a mão direita na direção do homem, e este a segurou com a sua própria, fechando o cumprimento.

— Daniel, muito prazer — disse, intrigado, com uma expressão que seria tida como séria se suas maçãs do rosto não estivessem rosadas pela bebida.

— Ah, eu já o conheço, senhor Daniel Den’eu, sou um grande fã. Me chamo Robert Sá, e também sou jornalista investigativo. — ele disse sorrindo.

— É mesmo? — Daniel indagou, incrédulo.

— Sim, mas ainda não tenho nenhuma matéria publicada — Robert tomou um gole da cerveja, mas algo o fez pigarrear e soltar um grunhido. Ele disse, com os olhos lacrimejando –. Não estou acostumado com bebida.

— Percebe-se. Mas enfim, por que você está aqui?

Robert hesitou por alguns segundos, “formulando uma desculpa, talvez?” Ele olhou para Daniel, e mais uma vez este imaginou ter visto as íris mudarem de cor numa fração de segundo. Então a resposta veio.

— Bem, é que eu estou no meio de uma investigação agora, é algo grande, então eu queria sua ajuda.

 “Um caso grande, é?”

— Certo, e como você me encontrou?

— Foi só perguntar pra pessoas que te conhecem, eles sabiam onde você costumava ir. Mas não foi nada fácil, passei uns dois dias procurando, e hoje mesmo estive em cinco bares antes deste.

— Muito bem… Ahn — “Robert”, lembrou-o — sim, Robert, e que “caso grande” é esse de que você fala?

— Não acredita em mim, não é? — Robert percebeu a ênfase certamente irônica na frase de Daniel.

— Olha, pra te falar a verdade não, mas me conta mesmo assim, vai.

— Ok. Não sei se você se lembra, mas há uns oito meses, mais ou menos na metade de outubro, houveram casos de desaparecimentos estranhos.

— Não lembro, cara, não era uma época muito boa pra mim na metade de outubro.

— Ah, desculpe, esqueci que você estava envolvido no escândalo com a Dex.

— Pois é, eu também estava tentando fazer isso até agora — disse Daniel, claramente aborrecido.

— Me desculpe, eu não queria deixá-lo com raiva, mas é esses casos não foram resolvidos até hoje, e não houve nenhuma nota por parte da polícia sobre isso. Eu investiguei um pouco e descobri que todas essas pessoas eram ligadas de alguma forma à pesquisa de Pontes E-R.

Os olhos de Daniel se arregalaram quando o tema que lhe rendeu prêmios e fama fora citado. Alguma curiosidade começara a crescer dentro de si. “Espera um pouco, é claro que ele falaria das Pontes E-R! É o meu trabalho mais famoso”. E a surpresa desvaneceu.

— Isso é tudo?

— Não! O que mais me surpreendeu durante as investigações foi um surto de quase cinco desaparecimentos que ocorreram entre o mês passado e este, a mesma época em que iniciaram-se testes com transporte de tecidos pelos E-R.

Isso era novidade para Daniel. Mesmo fora do ramo, isso não o impedia de comprar e ler jornais, mas em nenhum dos periódicos que acompanhava havia sequer uma nota sobre as pesquisas de transporte de tecidos por meio de portais.

— Também descobri que uma dessas pessoas era um ufólogo meio famoso na internet, conhecido como “O Viajante Espacial”.

— Ufólogo? Isso está parecendo uma daquelas teorias de conspiração. Deixa eu adivinhar: a internet surtou achando que levaram ele pra Área 51 ou coisa do gênero?

— Não é isso. Esse tal ufólogo era um cara que publicava coisas sobre os E-R também, mas um dia ele começou a divulgar pesquisas sobre a viabilidade da colonização marciana, claro que ele imbuiu nos artigos toda aquela baboseira alienígena de blogueiro.

— Tá, mas o que ele tem a ver com tudo isso? A colonização de Marte já começou há cinco anos.

— Eu imagino que ele tenha realmente descoberto algo importante sobre essas pesquisas, não sobre os alienígenas, claro.
Daniel esvaziou o copo, deixou uma nota sob ele e se levantou.

— Chefe! — disse, chamando o barman — Cinquentinha cobre as duas, certo?

— É! — ele respondeu.

— Muito bem, vamos embora, você me conta mais no caminho pro ponto de táxi.
Robert se levantou e seguiu Daniel para fora do bar, e na calçada o diálogo foi retomado.

— O que mais você tem aí?

Robert mexeu num dos bolsos do sobretudo e tirou um pedaço de papel com manchas de tinta. Ele entregou-o a Daniel, que manuseou o papel e descobriu algo escrito. Lia-se “O lado negro”. Daniel olhou para Robert, confuso.

— O que isso devia significar?

— Bem, acho que você deveria saber, já que durante alguns meses pesquisou sobre o desenvolvimento de armamento com base nas E-R.

Como ele sabe isso?” Era uma investigação inacabada, seria finalizada e publicada (se o escândalo não tivesse estourado) em agosto. Ele mostrara o material que tinha para pouquíssimas pessoas.

— Como você sabe isso?

— Internet, cara, nada mais é segredo.

— Ah, claro. Ás vezes eu esqueco que isso existe.

Robert parou de andar, Daniel foi mais uns passos a frente antes de notar, mas quando o fez, virou-se para ele e perguntou:

— Por que parou?

— An? — Robert nem olhou para Daniel, simplesmente sacou seu celular — Anota aí meu número.

— Estou sem celular. Mas tenho uma caneta.

Daniel pegou o pedaço de papel manchado que recebera de Robert e anotou o número. Depois disso, ambos chegaram no ponto de táxi, onde havia um carro esperando. Daniel entrou e foi para casa, deixando Robert para trás.

Naquela noite, Daniel chegou em casa meio cambaleante e caiu direto na cama. No dia seguinte, por volta de duas da tarde, ele acordou com uma dor de cabeça, não tão terrível quanto algumas anteriores, mas ainda assim bem forte, e foi para a gaveta dos analgésicos. Após dois comprimidos e quinze minutos, estava apto a ir ao computador verificar algumas coisas. Tudo ocorreu na mesma ordem de todos os dias: Primeiro os e-mails, depois observar alguns documentos antigos, abrir o software de escrita, modificar as configurações padrão para um que se adeque a seu estilo, entrar no site da rádio fm local, esquecer de escrever, fechar os e-mails, observar mais documentos, dar um suspiro entediado, se levantar e ir comer alguma coisa. Durante a refeição, que consistia em um pão dormido e um copo de suco, Daniel se lembrou de Robert, e da conversa que teve com ele na noite anterior. Tateou nos bolsos e descobriu o pedaço de papel manchado com o número dele.

Primeiro ele foi checar os casos de desaparecimentos. Encontrou alguns mas nada que o levasse a pensar que havia alguma ligação capciosa com pesquisas de Pontes E-R ou nada parecido. Procurou também sobre o ufólogo desaparecido, Ryan Carlton, era o nome dele, mas não encontrou sequer o site. “Sabia que tinha coisa aí, fiz bem em não dar meu número pra ele”, pensou, e neste momento, seu celular tocou.

Número desconhecido, é o que mostrava a tela do aparelho. Algo dizia a Daniel que não era uma boa ideia atender, e tudo aquilo estava ficando muito estranho. Mais estranho ainda foi quando o celular parou de tocar e imediatamente recomeçou, ainda mostrando “número desconhecido”. Ele decidiu por fim atender, esperando pelo melhor, e quem estava do outro lado era Mary Dex, “realmente não era uma boa ideia atender o telefone”. Ao fim da ligação (não durou muito, ela só queria saber se ele ainda tinha algum contato no ramo artístico), Daniel tentou ligar para Robert. Na segunda tentativa ele atendeu.

— An- Alô? Quem está falando?

— Robert? Sou eu, Daniel Den’eu, nós conversamos ontem sobre alguns desaparecimentos.

— Ah, sim! Senhor Daniel.

— Então, eu pesquisei algumas coisas aqui sobre o que nós falamos, e não achei nada de mais. Inclusive, não tem nada na internet sobre o tal Ryan Carlton

— Bem, sinceramente não sei o que pode ser isso, mas você não quer vir aqui em casa agora? Eu te mostro os documentos que tenho aqui, ou se achar melhor eu vou aí.
Daniel parou por alguns segundos, suspirou afagando a testa com o polegar e indicador da mão esquerda.

— Certo, eu vou aí então — “Jamais eu deixaria um cara estranho vir na minha casa” — Me passa teu endereço.

— Tudo bem.

Em três horas Daniel estava no caminho para a casa de Robert, que ficava num bairro esquisito, cheio de sacos de lixo nas calçadas, carros velhos e enferrujados, as pessoas que passavam pareciam estranhas e estavam meio sujas também. Ele realmente não é bem sucedido. Virou à direita e encontrou a casa.

Parado em frente, Daniel desceu do carro e seguiu em direção à entrada. Não havia campainha para ser tocada, então ele apenas bateu na porta.

— Olá!?

— Pode entrar! — ouviu Robert dizendo de dentro da casa.

Assim Daniel fez. Empurrou a porta para dentro e entrou. Por dentro a casa era ainda mais esquisita do que por fora. As paredes estavam mofadas, os móveis velhos e quebradiços. Havia papéis jogados pelo chão e a iluminação era fraca. Na sala de estar, não havia lâmpada no teto, apenas um abajur ligado sobre um banquinho. “Nossa, acho que devia ter chamado ele pra ir na minha casa, a final de contas”. Um som estranho chamou sua atenção. Era um som de algo sendo derrubado.

— Robert? Que barulho foi esse?

— Não se preocupe, eu estava juntando os documentos e esbarrei nos livros, desculpe — Robert respondeu, com a voz ao longe — Sente-se em algum lugar, se quiser.

— Tá legal. — “Tá louco, não consigo enxergar um sofá em nenhum lugar e não vou arriscar minha saúde sentando nesse chão”, decidiu ficar de pé mesmo.

O abajur apagou-se, juntamente com todas as fontes de luz visíveis da sala, deixando tudo no mais completo e absoluto breu. “Certo, isso me pegou desprevinido”. A lâmpada do corredor se acendeu e ficou piscando, pendurada no fio do teto, balançando pra lá e pra cá. Daniel olhou para o corredor, ao mesmo tempo um vulto passou por trás de si ruidosamente. Ao virar-se para trás, o abajur estava aceso, caído no chão, e contra a luz estava o que apenas poderia ser interpretado como uma silhueta.

A silhueta era de estatura mediana, um pouco mais baixa que Daniel (que media apenas 1,68m), mas os braços eram grandes o suficiente para tocar no chão, finos como gravetos, assim como as perninhas curtas. O tronco era em formato semelhante a um trapézio, e a cabeça não era totalmente visível, mas os olhos eram claramente avermelhados.

A “coisa” (como Daniel resolvera chamá-la), soltou um som gutural, parecido com grunhidos, mas era consistentes, quase como os urros coerentes dos chimpanzés, mas mais comedidos. Em seguida ao som da criatura, Robert veio caminhando de lugar algum para junto dela.

— O que é isso aí do seu lado, Robert? — Daniel indagou, esperando que fosse um macaco estranho.

— Ele? Não se preocupe com ele — Robert se aproximou, suas iris estavam saltando entre azul, castanho e vermelho, e num segundo, Daniel não se mexia mais, todo o seu corpo estava paralisado, seus sentidos ainda estavam ativos, pois continuava vendo e ouvindo tudo ao redor, mas não conseguia falar.

Os momentos seguintes foram registros de sua visão e audição, a criatura pulou em meio a escuridão na direção de Daniel, grunhindo e arranhando com força o corpo dele, as mordidas em seu braço esquerdo arrancavam nacos de carne que ardiam e doíam profundamente, nas costas da criatura, as asinhas de couro e ossos sofriam espasmos, a pele fina e rosada demonstrava os caminhos venosos dentro de si, e o sangue de Daniel manchava o corpo franzino da coisa.

A última coisa que Daniel viu foram os olhos vermelhos da criatura quando esta começou a comer seu rosto.

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