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Me mudei para mais perto do centro. Era um lugar legal, mesmo, exatamente como eu me lembrava. Ou quase igual. Quando eu cheguei pela segunda vez, tinha um parque bem grande colocado onde deveria ser apenas mais uma das muitas praças da cidade (onde eu costumava brincar com meus coleguinhas, nos escorregadores e balanços). Não fui muito com a cara do parque a primeira vista, ele tinha umas árvores de cores diferentes, muitas num tom alaranjado que eu não sou tão chegado, ou mesmo de um verde meio esquisito. Mas deixei passar, afinal, eu já tinha uma parte preferida do bairro -não era como se eu fosse simplesmente trocar de área- e foi aquela única vez. Daí eu troquei de área. Assim, por livre e espontânea vontade, decidi mudar, ser um pouco menos ranzinza e dar uma chance pro maldito parque. Gostei do que vi, as árvores eram mais bonitas vendo de perto (ainda não curto muito laranja ou aquele verde esquisito), e todo o parque tinha um ar jovial e aventuresco que era raro de se ver. Claro que a máxima ainda funciona, quem já viu um parque já viu todos, mas esse tinha alguma coisa a mais: um banco. Venho me referindo ao lugar como parque, mas não haviam estradinhas de tijolos. Só gramado, um lago no centro e árvores, era tudo que tinha. Tudo e um banco. Não era nada rebuscado, como alguns bancos que já havia visto, mas também não era aquela porcariazinha que existe em muitos parques fuleiros que tem por aí. Simples, feito de madeira, com alguma coisa em ferro, envernizado e praticamente novo, foi o que eu vi pela primeira vez. Logo pensei que seria um bom lugar para passar os dias lendo, mas meus planos foram frustrados quando percebi que alguém já estava sentado lá no dia em que trouxe meu livrinho à tira-colo, o que não durou tanto, para falar a verdade, rapidamente a pessoa saiu, me dando carta branca pra sentar. Chegando mais perto do banco, percebi que tinha algumas marcas nele, não muitas, mas eram profundas. Pareceu a mim que alguém o marcou com estilete ou qualquer coisa do tipo, mas ignorei e me sentei, de qualquer forma. Peguei meu ipod, coloquei os fones, abri o livro e tive a melhor experiência de toda a minha vida até aquele momento. Tanto que voltei lá todos os dias durante nove meses. Meu emprego estava numa boa, desenhar estampas de camisetas é praticamente o trabalho dos meus sonhos, e eu só tenho que pegar no pesado de fato durante umas duas horas, o resto é “processo criativo” (que eu adoro), logo, tive tempo suficiente para me deleitar com a beleza do parque enquanto lia tranquilo. Devo dizer que me tornei uma pessoa melhor indo lá, mesmo o lugar sendo muito frequentado, eu podia me sentir sozinho, mas não o sozinho melancólico que todo mundo sente, mas um sozinho diferente, quase uma solidão compartilhada, como um casal cujas mentes estão em sincronia, e mesmo no meio de uma multidão, separados, eles sabem exatamente onde o outro está, e por vezes, não ligam tanto pro fato de estarem a sós quando na verdade não estão. Era assim que eu me sentia, tirando o fato de que eu nunca tive ninguém mesmo. A minha sintonia era, posso garantir com certeza hoje, com o parque em si. Era como se ele falasse diretamente a mim, mas eu estou louco então não importa. Tudo estava maravilhoso, só que o inverno veio. A neve que chegou foi em quantidade muito maior que dos invernos anteriores na cidade inteira, tanto que cobriu quase um metro de altura em alguns pontos. E a temperatura ficou baixa demais para permanecer sequer por meia hora na rua. Fiquei impossibilitado de voltar para meu parque querido. Só que o inverno passou, e quando finalmente consegui uma chance de voltar lá, após uma estação tenebrosamente gelada, aquela pessoa já estava em seu lugar do primeiro dia, então eu dei meia volta e rumei para casa, convencido de duas coisas:

-Aquela pessoa vai sair dali de novo. Algum dia. Para sempre;

-O inverno pode acabar e posso até encontrar outros bancos naquele mesmo parque, mas aquele lugar jamais estará vago para mim novamente.

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