Introdução

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No bairro central da cidade, onde uma passarela se estende sobre a rua mais movimentada, centenas de pessoas passam todos os dias. Adultos, crianças, senhoras e moças, todo tipo de gente cruza a passarela, indo ou voltando. Certo dia, em meio a essas centenas de pessoas, duas delas agem de forma peculiar: uma mulher de vestido cor de rosa, desalinhada, que cambaleava enquanto caminhava, e uma criança sendo levada por ela.

— Mamãe, onde estamos indo? – o garoto perguntou, amavelmente, enquanto era levado por sua mãe, que o segurava pelo braço apertando firmemente.

— Calado! – A mulher rosnou, entre dentes, tirando fios de cabelo da frente do rosto com a mão livre.

O suor corria frio sobre seu rosto abatido e insone, mas Jennifer seguia firme, tropeçando aqui e ali, enquanto caminhava pela passarela amarela. Eles andaram até o meio da ponte, onde Jennifer encostou no parapeito e olhou para a rua movimentada abaixo. Pegou o garoto pela cintura, e o ergueu até que ele ficasse de pé sobre o parapeito, seguro apenas pelas mãos da mãe.

As pessoas que caminhavam pela passarela olhavam desconfiadas, mas nenhuma delas parou ou sequer cogitou o que realmente estava acontecendo naquele lugar, e mesmo que tentassem, por mais que o fizessem, jamais descobririam a verdade.

— Mamãe, eu estou com medo… – disse, olhando pra baixo, e com os olhos lacrimejando.

— É melhor que esteja mesmo! – as mãos trêmulas largaram a criança, deixando a gravidade fazer seu trabalho, levando o pequeno corpo a entrar em choque com a van branca que passava exatamente naquele momento.

A mulher ficou ali até a polícia chegar ao local e levá-la…

***

A sala era pequena, continha uma mesa metálica retangular e uma cadeira em cada lado maior, numa das quais Jennifer estava sentada, algemada. As mãos sobre a mesa, arranhando o metal com as unhas compridas (as que não estavam roídas, pelo menos), num movimento de vai e vem constante e nervoso. A boca trêmula, os olhos vidrados, com olheiras imensas, o rosto pálido com suor congelante descendo e os cabelos desgrenhados desenhavam a aparência daquela pessoa transtornada.

O policial entrou pela porta, acompanhado de outro homem, que carregava consigo um caderno de notas e uma caneta. Em seguida o policial saiu, fechando a porta atrás de si, deixando-o e Jennifer a sós. O homem que ficou para trás andou até a cadeira vaga, tirou seu casaco e pendurou no encosto, e sentou-se, colocando entre si e Jennifer o caderno.

Era um homem forte, a camisa se dobrava sobre sua musculatura, a gravata completamente preta, sem qualquer desenho ou motivo, o reflexo da luz no que parecera ser um colar, os cabelos alinhados e brilhantes, o rosto centrado observando e a postura imponente compunham o que era o investigador David Assis.

David ficou olhando para Jennifer por cerca de um minuto, e nesse tempo ela executou incontáveis vezes os mesmos movimentos que fazia desde que fora colocada na sala, meia hora antes.

— Bem… – pausou por alguns segundos, esperando que ela completasse sua frase, mas quando o complemento não veio, o investigador continuou – Jennifer… Importa-se de dizer o que a levou a jogar uma criança do alto da passarela central?

A ré ficou reticente por um tempo, apenas olhando e roendo as unhas, até que David repetiu a pergunta, e ela respondeu:

— Ele é meu filho… Ou era, pelo menos.

— Por que você “teve” que assassinar seu próprio filho?

Jennifer se inclinou para frente, com as palmas das mãos sobre a mesa, os olhos ainda vidrados pouco piscavam, e a boca trêmula parou para indagar:

— Ele está… Morto mesmo?

— Sim, senhora, seu filho está morto, e você causou isso.

— Ótimo! – exclamou sem hesitar, recostando-se novamente na cadeira.

David levantou e saiu, pouco depois veio o policial e levou Jennifer embora da sala, para uma cela, onde ela permaneceria indefinidamente.

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Perdido

Eu andava pela rua apressado naquele dia, talvez mexendo no celular, já nem lembro, mas o que eu lembro bem, é que esse dia me tirou tudo e ainda mais.

Era um dia de inverno, eu vestia roupas quentes e grossas, lembro bem que mesmo assim ainda sentia o sabor do frio no corpo, eram compradas no cemitério das roupas, então já era de se esperar que não servissem mais direito (os invernos ficavam mais frios a cada ano, mas ainda não eram frios como os invernos de cem anos atrás, nós estávamos retornando ao normal do planeta naquele tempo). Eu gostava de inverno, na verdade, e me arrependeria amargamente disso este dia. Lembro que estava atrasado para a entrevista de emprego mais importante da minha vida, acho que era um dos ex colegas de faculdade do meu tio ou algo assim, mas eu caminhava a passos nervosos, esboçando um começo de corrida.

Não estava realmente atrasado, restava coisa de meia hora para começar, mas as filas no S.M.I.T. eram sempre tão grandes que raramente a gente demorava menos que trinta e cinco minutos para conseguir acesso às cabines, e quando finalmente consegui vê-las, já haviam se passado três minutos do horário marcado. Eu estava completamente perdido, mas ainda poderia dar a desculpa das filas e com sorte ele compraria (essas pessoas ricas que têm auto-carros sempre esquecem que a galera usa transporte público).

Cheguei na cabine dois minutos depois de decidir como tentaria contornar o meu atraso. Esta, em particular (a do meio numa fila de nove cabines), tinha umas manchas que pareciam ser de doce ou algo do tipo bem próximas do menu interativo. Fiz algum esforço para ignorá-las (sim, sou dessas pessoas que tem nojinho das coisas), inseri meu vale-transporte e a tela se acendeu. Digitei a estação desejada, “enter”, e a porta à esquerda se abriu. Sem olhar, atravessei o portal e me perdi para sempre.

Instantaneamente senti a lufada de vento gelado que me atingiu. A temperatura estava pelo menos vinte graus abaixo do que experienciava segundos atrás, mas isso nem era o mais assustador de tudo. Olhando em volta, me vi cercado por uma paisagem quase completamente branca. A neve cobria as copas das árvores na mata ao longe, rochas sobresaltadas do chão também tinham sua capa alva, meus pés afundavam no chão quando eu me movia, e o céu estava cinza, derramando flocos de neve como água na chuva. Logo meu rosto começou a doer, juntamente com os dedos das mãos e dos pés.

Incerto do que havia acontecido, saquei meu celular do bolso, tremendo. Estava sem sinal, e isso era estranho, pois esse problema de rede já tinha sido reparado há anos, depois de terem aperfeiçoado a tecnologia de portais. Comecei a andar, da melhor forma que se pode caminhar na neve usando tênis, na direção da mata próxima. Depois do que pareceram dez minutos (que na verdade foram só seis), meus lábios já estavam terrivelmente ressecados, eu estava ofegante e cansado pelo esforço de me locomover.

As roupas não estavam dando conta do frio intenso, as luvas idem, e os tênis nem se fala. Eu estava estropiado e nem tinha alcançado a entrada da floresta, mas continuei andando. Finalmente consegui chegar onde queria, pensando que talvez as árvores quebrassem um pouco do vento e ficasse um tico mais quente. Eu só estava meio certo, porque o vento realmente parou de me açoitar, tal qual um senhor ao seu escravo, mas o frio não diminuiu nada. Resolvi me sentar numa área sem neve, encostado a uma árvore, para tentar botar minha cabeça em ordem.

— Certo — comecei, falando para ninguém — eu passei por aquele portal, mas por alguma razão estou num deserto gelado e isolado. Deve ser alguma coisa psicológica, devo ter batido com a cabeça em algum lugar, talvez até tenha tropeçado na rua e tudo isso seja coisa da minha imaginação — Tentei me convencer disso por alguns minutos, mas sendo imaginação ou não, eu estava congelando, e escurecia rápido.

Até ali (por incrível que pareça), estava tudo bem, mas em algum momento eu sentiria fome, e esse momento chegou rápido. Procurei debilmente por algum petisco ou equivalente em meus bolsos, mas não encontrei nada.

“Maldita semana de início de dieta”.

Desolado por não achar sequer um papelzinho de doce nos bolsos, e como todo jovem criado num mundo onde comer era a principal atividade do dia, resolvi desistir e me entregar a morte. Estou exagerando aqui, eu não era tão derrotado assim, quando era menor até ia nas aventuras de caça com o meu pai de vez em quando, fazia uns exercícios e tal, mas sim, dei uma afrouxada faz um tempo. Aproveitando que mencionei caça, devo dizer que nunca curti armas de fogo, e também não era chegado em arco e flecha ou lanças (tinham uns colegas do meu pai que gostavam de fazer do jeito antigo), é meio injusto com os animais, eu acho, eles nem podem se defender.

Enquanto eu ficava lá sentado sentindo a temperatura me matar, um barulho estranho me chamou a atenção. Quando olhei na direção do som, não vi nada além de árvores e neve, mas observando por mais tempo, percebi algo na neve, um animal que parecia ser bem grandinho estava encostado numa árvore a uns quinze metros de mim, ganindo de vez em quando. Claro que tentei me aproximar do bicho para ver o que era. Primeiro tentei levantar, sem sucesso pois quase não sentia as pernas, dormentes pelo frio, então fui engatinhando mesmo, o que aliás foi uma ideia terrível, minhas mãos doíam terrivelmente quando fiquei perto o bastante para ver que era um lobo, o maior que já havia visto até então, e estava mortalmente ferido.

Ele tinha um rombo no tórax suficientemente grande para deixar as costelas à mostra, a quantidade de sangue era enorme também, e grande parte já estava congelada e escura, formando uma crosta endurecida nos pelos brancos e um borrão no chão. Observei mais um pouco, não notei nenhum tipo de ferimento nas patas e o focinho estava manchado de sangue.

— Pelo menos pegou um deles — eu disse, tentando reconfortar mais a mim do que ao lobo (já não entenderia nada da mesma forma)

O lobo estava ganindo ainda, e respirando com muita dificuldade, praticamente implorando para que algo acontecesse, algo que eu não faria, pois com a minha forma física seria mais doloroso que libertador para ele, decidi não tocá-lo. Percebi que havia um rastro de sangue, denunciando o caminho de sofrimento que o animal teria feito, e resolvi seguí-lo. Eu esperava encontrar pessoas no fim do rastro, mas tudo o que vi foi um urso, pelo menos duas vezes maior que o lobo (que já era quase do tamanho de um garrano), com o pescoço dilacerado e a barriga completamente aberta, com as entranhas congeladas para fora, parecendo serpentes rosadas de pedra.

O frio começou a apertar mais, cada segundo deixava a noite mais perto, e com ela outros animais poderiam aparecer (eu realmente não iria gostar disso). Meu celular vibrou no bolso, e quando peguei para verificar, alguém tinha me enviado um e-mail e isso significava que eu poderia usar o GPS para saber onde estava e assim poder pedir ajuda.

Foi o que fiz, acionei o GPS e segundos depois a tela me disse algo impossível: 23° 32′ 56″ Sul, 46° 38′ 20″ Oeste, ou seja, São Paulo. Certamente o negócio estava errado, porque não dá pra ficar nem um minuto em São Paulo sem ver um prédio sequer, e tem a questão da neve e do frio excruciante também. Tentei novamente, mesmo resultado. Finalmente decidi ligar para alguém: meu pai, que atendeu no sexto toque, e meio puto porque aparentemente eu estava três horas atrasado para a minha entrevista. Comecei a dizer o que estava acontecendo e ele achou que era alguma brincadeira, desligou e não atendeu mais depois. Inclusive ninguém atendia minhas ligações, e quando tentei pedir ajuda, ligando pro resgate ou algum órgão similar, acharam que era trote.

Eu teria que me virar se quisesse chegar até uma cidade (o que demoraria uma porrada de tempo, porque a imensidão branca, tal qual o reino de Simba, ia até onde a vista alcançava). Estava cansado pelo esforço de andar até ali, e certamente não iria voltar, então dei uma fuçada na internet em como fazer uma fogueira (eu devia saber, já que ia caçar com meu pai, mas fazia muito tempo, eu esqueci), baixei alguns textos sobre sobrevivência na floresta também, mas nada falava sobre como lidar com hipotermia. Daí eu lembrei de um filme onde alguém, num lugar de gelo, vai pra dentro de um animal morto pra não morrer de frio, e logo eu rejeitei essa ideia. Possibilidades muito remotas de eu ir pras entranhas daquele urso, nã-ãh.

Comecei a procurar madeira e folhagem seca (no meio da neve) no chão, que servisse pra fazer uma fogueira, conforme li nos textos, e meia hora depois estava eu, sentado na neve, friccionando gravetinhos molhados com o gelo derretido sobre umas folhagens igualmente molhadas. Depois tentei a técnica das pedrinhas, batendo uma na outra, gerando faíscas, mas que não adiantavam muita coisa já que a folhagem, como eu disse, estava úmida. Finalmente percebi que estava usando um casaco com capuz felpudo. Arranquei um tufo dos pelinhos no capuz e tentei novamente, dessa vez com sucesso, e uma chama se iniciou, mas uma lufada de vento a apagou. Lá fui eu novamente, dessa vez fui mais cuidadoso e consegui manter a chama acesa por mais tempo, conseguindo inclusive começar a fogueira.

Devo dizer que não adiantou muito, e a fogueira pareceu mais com uma lanterna crepitante, calor que era bom, nada. Aproximei minhas mãos o máximo que pude do fogo, e só minhas mãos ficavam quentes, meu corpo sofria a cada mordida do vento gelado, e ainda estava com fome. Eu olhei para o corpo do urso ali do lado, com nacos de carne pendendo para fora. Como estava usando luvas, o tempo para decidir comer o animal ou não foi relativamente curto, e alguns momentos depois eu estava segurando um galho com um pedaço de carne na ponta sobre o fogo.

Já alimentado, restava a questão do frio. Não tinha jeito, depois de duas horas enrolando e enganando a mim mesmo, cedi e fui pra dentro do urso, pondo de lado todas as minhas definições de dignidade. Era bem quentinho ali, confesso, mas extremamente nojento também. Lembro que fiquei ali por um tempo pensando em nada, e depois adormeci.

No dia seguinte acordei com o fedor do cadáver me impelindo a sair de perto dele. Segundo meu celular (que desliguei, para que a bateria durasse mais), eram quase onze da manhã. Resolvi procurar mais alguns textos de apoio para a “aventura congelante” que teria pela frente, e descobri que precisaria de facas, armas de caça (não dá pra ficar comendo frutas eventuais e esperar outros animais fazerem o trabalho) e outras coisas que nenhum dos apresentadores de programas de sobrevivência da tevê a cabo mencionam, além de roupas quentes, claro.

A primeira coisa que tive de aprender a fazer foi uma faca de osso, usando o material fornecido pelo nosso amigo Pimpão deitado ali do lado, o que não saiu muito bem pois eu não tinha expertise nenhuma em artes manuais. Usei um cadarço do tênis para atar um dos dentes do bicho num pedaço de pau. Depois do fracasso, resolvi mudar de atividade, e tentar arrancar um pouco de couro do urso pra me cobrir (não era uma roupa decente, mas teria que servir). Para tal, tive que tirar umas garras das patas dele, já que o dente não se provou muito eficaz.

Saltando algumas horas no tempo, eu já tinha em minha posse um retângulo de couro e pelos, uma faca de osso muito mal feita e uma garra. Olhei para minhas “armas” com mais atenção, e decidi que não gostava delas. Resolvi aprender a moldar essas garras de forma a conseguir manuseá-las mais facilmente, e mais de uma por mão, como o urso faz (pra ser sincero, eu queria mesmo era ficar igual a um personagem que eu curtia bastante). Mais algumas horas depois, consegui atar duas garras em cada luva, usando os cadarços e furos nas costas delas. Arranquei mais uns pedaços de carne do urso, prendi em outras tiras de couro para garantir que não precisaria matar nada nos próximos dias.

Quentinho e preparado, comecei a caminhar. Como nada de interessante aconteceu nos primeiros dias, eu só andei, fiquei me abrigando em cavernas e fazendo fogueiras. Até aí estava tudo bem (ou quase), só que a carne acabou, e eu precisava ir atrás do que comer. Tive sorte de ver que havia um tráfego frequente de animais pela Floresta Nevada (eu tinha que dar nome pras coisas, se não eu ficaria perdido), então coloquei minhas luvas e fui pro mato.

No começo, tentei uma aproximação direta, esperando os bichos ficarem na minha frente, mas obviamente não deu certo, e recorri ao meu celular (que já tinha menos da metade da carga). Como não sabia ou tinha os materiais necessários pra confeccionar uma corda, subi numa arvore mais baixa e esperei. Quando uma lebre estava desatenta logo abaixo, caí sobre ela como um relâmpago atinge o solo. As garras de urso apontadas para o corpo pequeno durante a queda atingiram em cheio as costas da criatura, me garantindo mantimentos para dois dias. No decorrer das semanas eu fui ficando melhor nas atividades do dia-a-dia de um selvagem, enquanto fazia meu caminho por esse lugar quase inóspito.

Depois de quase um mês, quando já havia abandonado meu celular em alguma caverna ou árvore lá pra trás, eu tinha me instalado numa caverna na outra ponta da Floresta Nevada, cuja saída dava para uma planície branca, e montanhas negras ao fundo. Quando acho que não existia nada ali além de lebres, um mamute passou uns vinte metros ao longe, saído de trás de uma cadeia de rochas. Eu nunca tinha visto um (aliás, ninguém nos últimos dez mil anos tinha), e se eu já estava me acostumando à ideia de ter me perdido no espaço por falha no portal, agora nem sabia mais de nada.

Fiquei um tempão olhando o paquiderme passear pela planície sozinho, pouco depois vieram mais quatro do mesmo lugar. Vi os pelos manchados aqui e ali de branco pela neve, tremulando conforme o vento passava por eles, e a trilha de pegadas fundas que faziam ao caminhar, então retornei para dentro da caverna, onde fiquei até o dia seguinte tentando me convencer de que era um engano.

Depois de mais certo de que estava ficando doido aos poucos, saí para continuar meu caminho. O céu estava escuro, como em todos os dias desde que cheguei ali. Continuei andando para o que eu imaginava ser o norte, talvez encontrasse alguma pessoa ou cidade depois da Planície dos Mamutes, mas nada. Não encontrei uma caverna para passar a noite, mas tinha minhas peles quentinhas e bastava acender algumas fogueiras para os animais ficarem longe durante a noite.

Era madrugada, o breu da noite tomava conta de tudo fora do raio das fogueiras quando eu ouvi uns barulhos estranhos. Meu sono tinha se tornado muito leve naqueles tempos, e foi isso que me salvou do ataque de um tigre grotescamente grande, que veio de sei lá onde, mas não me acertou por pouco na primeira investida. Só que eu não tive tanta sorte assim nas outras vezes.

O animal, que não tinha medo do fogo, pulou sobre mim, desviei mas não adiantou de muita coisa, pois a pata esquerda dele acertou meu rosto, tirando filetes de sangue por onde as garras rasparam. Estava com as luvas colocadas numa bolsa que fiz com a pele da primeira lebre que consegui caçar, não daria para pegar sem me arriscar. Peguei um pedaço de madeira da fogueira, e comecei a urrar e balançar o toco em chamas na direção do tigre, que se assustou e recuou um pouco, o suficiente para que eu pudesse alcançar a bolsa com as luvas. Quando estava tirando-as de dentro, mais uma investida, e caí.

As garras fincadas profundamente no meu braço direito me anestesiaram por um segundo, foi quando meus reflexos agiram e perfurei um olho do tigre, que caiu em cima de mim, com todo o peso, quebrando alguns ossos do meu corpo. Eu estava bem ferrado quando consegui me arrastar para fora. Provavelmente quebrei uns ossos nas pernas, não teria como precisar onde mais porque tudo doía.

Perdido na era do gelo, nem era um jeito tão ruim de morrer, afinal. Mas se um humano usando, sob peles de urso, roupas do século XXI fosse encontrado, acho que eu ficaria sabendo no meu tempo, seria um big deal, acho.

Fiquei morrendo até de manhã, foi quando ouvi um som extremamente alto, o suficiente para que os pássaros revoassem. Era uma sirene bem alarmante, aquela. Me arrastei como pude, juntando todas as minhas forças (que nem era tudo isso), consegui percorrer algumas centenas de metros, até chegar numa borda, onde rocha se transformava numa muralha, onde eu estava não era uma planície, mas sim um planalto imenso, e logo abaixo, ruínas que se estendiam por todo o campo visível. Prédios caídos, restos de estruturas, e o que lembrava muito um Servidor Estadual, que mesmo destruído era gigante, ao longe.

A perspectiva era essa: Eu minúsculo, deitado sobre a neve na borda de um planalto, provavelmente cercado pelo que sobrou da civilização naquele lugar que um dia fora São Paulo. Eu não estava na Era do Gelo, mas sim, no futuro, e ele era terrível.

Um Grande Caso.

Daniel Den’eu era um jornalista investigativo de sucesso, viu sua carreira ascender com apenas 23 anos de idade, venceu prêmios internacionais com suas matérias, sendo a mais relevante delas intitulada “Portais: Nossa salvação ou o Fim dos Dias?”, porém, um ano antes de publicar o que seria seu último artigo, estourou um escândalo envolvendo um caso seu com a atriz de segunda classe chamada Mary Dex enquanto este ainda estava casado com a também jornalista Helena Salvan, levando sua reputação para a vala. Seis meses depois do frisson das notícias, Daniel se encontrava indo frequentemente a bares e casas de jogos, lugares que apenas frequentava com o intuito de conseguir informações.

Estava sentado num dos bancos em frente ao balcão, com os cotovelos apoiados na madeira, cercando com os braços cruzados um copo americano com apenas algumas gotas do Uísque que outrora transbordava do recipiente e agora estava pela metade dentro da garrafa.

O barman passava um pano de tecido áspero e de aparência poeirenta sobre o tampo do balcão quando um homem adentrou no estabelecimento. Ele vestia sobretudo cinza, cobrindo um traje social bem acabado, os sapatos lustrosos e a aparência asseada indicavam claramente que ele não deveria estar ali, pelo menos não de propósito, foi o que Daniel pensou quando o viu, mas ele também já se vestira assim no passado, as coisas mudam. O olhar do homem bem vestido percorreu o ambiente várias vezes, indo e voltando, como quem procurava algo ou alguém perdido, até que encontrou-se observando um homem barbado, com tatuagens de moto clube no braço esquerdo, que tomava cerveja numa caneca de vidro. Este disse quando notou que estava sendo visto:

— Quê que é, florzinha? Tá perdido? Pois se estiver, o banheiro fica logo ali atrás –apontou para a porta que ficava a não mais de um metro de Daniel–, um merda como você deve gostar do que vai ver.

Todos que compartilhavam da mesa com o motociclista riram alto, batendo com as canecas no tampo. O homem continuou a olhar em volta. Daniel estava tomando uma dose de uísque quando seus olhos encontraram com os do homem, e por um segundo Daniel pensou que as íris dele haviam saltado do azul suave que eram para um tom castanho meio esquisito, como os seus próprios, e de volta ao azul. “Acho que esse é o sinal que eu já bebi muito”, pensou, “ótimo”, e tornou a encher o copo. Qual não foi sua surpresa quando o homem veio caminhando em sua direção. Ele sentou-se no banco ao lado e pediu cerveja. O barman estava trazendo o copo quando o homem puxou assunto com Daniel.

— Dia difícil, né? — e deu um risinho tímido.

Daniel olhou de soslaio para ele enquanto bebia, parou no meio do gole, pousou o copo no balcão e esticou a mão direita na direção do homem, e este a segurou com a sua própria, fechando o cumprimento.

— Daniel, muito prazer — disse, intrigado, com uma expressão que seria tida como séria se suas maçãs do rosto não estivessem rosadas pela bebida.

— Ah, eu já o conheço, senhor Daniel Den’eu, sou um grande fã. Me chamo Robert Sá, e também sou jornalista investigativo. — ele disse sorrindo.

— É mesmo? — Daniel indagou, incrédulo.

— Sim, mas ainda não tenho nenhuma matéria publicada — Robert tomou um gole da cerveja, mas algo o fez pigarrear e soltar um grunhido. Ele disse, com os olhos lacrimejando –. Não estou acostumado com bebida.

— Percebe-se. Mas enfim, por que você está aqui?

Robert hesitou por alguns segundos, “formulando uma desculpa, talvez?” Ele olhou para Daniel, e mais uma vez este imaginou ter visto as íris mudarem de cor numa fração de segundo. Então a resposta veio.

— Bem, é que eu estou no meio de uma investigação agora, é algo grande, então eu queria sua ajuda.

 “Um caso grande, é?”

— Certo, e como você me encontrou?

— Foi só perguntar pra pessoas que te conhecem, eles sabiam onde você costumava ir. Mas não foi nada fácil, passei uns dois dias procurando, e hoje mesmo estive em cinco bares antes deste.

— Muito bem… Ahn — “Robert”, lembrou-o — sim, Robert, e que “caso grande” é esse de que você fala?

— Não acredita em mim, não é? — Robert percebeu a ênfase certamente irônica na frase de Daniel.

— Olha, pra te falar a verdade não, mas me conta mesmo assim, vai.

— Ok. Não sei se você se lembra, mas há uns oito meses, mais ou menos na metade de outubro, houveram casos de desaparecimentos estranhos.

— Não lembro, cara, não era uma época muito boa pra mim na metade de outubro.

— Ah, desculpe, esqueci que você estava envolvido no escândalo com a Dex.

— Pois é, eu também estava tentando fazer isso até agora — disse Daniel, claramente aborrecido.

— Me desculpe, eu não queria deixá-lo com raiva, mas é esses casos não foram resolvidos até hoje, e não houve nenhuma nota por parte da polícia sobre isso. Eu investiguei um pouco e descobri que todas essas pessoas eram ligadas de alguma forma à pesquisa de Pontes E-R.

Os olhos de Daniel se arregalaram quando o tema que lhe rendeu prêmios e fama fora citado. Alguma curiosidade começara a crescer dentro de si. “Espera um pouco, é claro que ele falaria das Pontes E-R! É o meu trabalho mais famoso”. E a surpresa desvaneceu.

— Isso é tudo?

— Não! O que mais me surpreendeu durante as investigações foi um surto de quase cinco desaparecimentos que ocorreram entre o mês passado e este, a mesma época em que iniciaram-se testes com transporte de tecidos pelos E-R.

Isso era novidade para Daniel. Mesmo fora do ramo, isso não o impedia de comprar e ler jornais, mas em nenhum dos periódicos que acompanhava havia sequer uma nota sobre as pesquisas de transporte de tecidos por meio de portais.

— Também descobri que uma dessas pessoas era um ufólogo meio famoso na internet, conhecido como “O Viajante Espacial”.

— Ufólogo? Isso está parecendo uma daquelas teorias de conspiração. Deixa eu adivinhar: a internet surtou achando que levaram ele pra Área 51 ou coisa do gênero?

— Não é isso. Esse tal ufólogo era um cara que publicava coisas sobre os E-R também, mas um dia ele começou a divulgar pesquisas sobre a viabilidade da colonização marciana, claro que ele imbuiu nos artigos toda aquela baboseira alienígena de blogueiro.

— Tá, mas o que ele tem a ver com tudo isso? A colonização de Marte já começou há cinco anos.

— Eu imagino que ele tenha realmente descoberto algo importante sobre essas pesquisas, não sobre os alienígenas, claro.
Daniel esvaziou o copo, deixou uma nota sob ele e se levantou.

— Chefe! — disse, chamando o barman — Cinquentinha cobre as duas, certo?

— É! — ele respondeu.

— Muito bem, vamos embora, você me conta mais no caminho pro ponto de táxi.
Robert se levantou e seguiu Daniel para fora do bar, e na calçada o diálogo foi retomado.

— O que mais você tem aí?

Robert mexeu num dos bolsos do sobretudo e tirou um pedaço de papel com manchas de tinta. Ele entregou-o a Daniel, que manuseou o papel e descobriu algo escrito. Lia-se “O lado negro”. Daniel olhou para Robert, confuso.

— O que isso devia significar?

— Bem, acho que você deveria saber, já que durante alguns meses pesquisou sobre o desenvolvimento de armamento com base nas E-R.

Como ele sabe isso?” Era uma investigação inacabada, seria finalizada e publicada (se o escândalo não tivesse estourado) em agosto. Ele mostrara o material que tinha para pouquíssimas pessoas.

— Como você sabe isso?

— Internet, cara, nada mais é segredo.

— Ah, claro. Ás vezes eu esqueco que isso existe.

Robert parou de andar, Daniel foi mais uns passos a frente antes de notar, mas quando o fez, virou-se para ele e perguntou:

— Por que parou?

— An? — Robert nem olhou para Daniel, simplesmente sacou seu celular — Anota aí meu número.

— Estou sem celular. Mas tenho uma caneta.

Daniel pegou o pedaço de papel manchado que recebera de Robert e anotou o número. Depois disso, ambos chegaram no ponto de táxi, onde havia um carro esperando. Daniel entrou e foi para casa, deixando Robert para trás.

Naquela noite, Daniel chegou em casa meio cambaleante e caiu direto na cama. No dia seguinte, por volta de duas da tarde, ele acordou com uma dor de cabeça, não tão terrível quanto algumas anteriores, mas ainda assim bem forte, e foi para a gaveta dos analgésicos. Após dois comprimidos e quinze minutos, estava apto a ir ao computador verificar algumas coisas. Tudo ocorreu na mesma ordem de todos os dias: Primeiro os e-mails, depois observar alguns documentos antigos, abrir o software de escrita, modificar as configurações padrão para um que se adeque a seu estilo, entrar no site da rádio fm local, esquecer de escrever, fechar os e-mails, observar mais documentos, dar um suspiro entediado, se levantar e ir comer alguma coisa. Durante a refeição, que consistia em um pão dormido e um copo de suco, Daniel se lembrou de Robert, e da conversa que teve com ele na noite anterior. Tateou nos bolsos e descobriu o pedaço de papel manchado com o número dele.

Primeiro ele foi checar os casos de desaparecimentos. Encontrou alguns mas nada que o levasse a pensar que havia alguma ligação capciosa com pesquisas de Pontes E-R ou nada parecido. Procurou também sobre o ufólogo desaparecido, Ryan Carlton, era o nome dele, mas não encontrou sequer o site. “Sabia que tinha coisa aí, fiz bem em não dar meu número pra ele”, pensou, e neste momento, seu celular tocou.

Número desconhecido, é o que mostrava a tela do aparelho. Algo dizia a Daniel que não era uma boa ideia atender, e tudo aquilo estava ficando muito estranho. Mais estranho ainda foi quando o celular parou de tocar e imediatamente recomeçou, ainda mostrando “número desconhecido”. Ele decidiu por fim atender, esperando pelo melhor, e quem estava do outro lado era Mary Dex, “realmente não era uma boa ideia atender o telefone”. Ao fim da ligação (não durou muito, ela só queria saber se ele ainda tinha algum contato no ramo artístico), Daniel tentou ligar para Robert. Na segunda tentativa ele atendeu.

— An- Alô? Quem está falando?

— Robert? Sou eu, Daniel Den’eu, nós conversamos ontem sobre alguns desaparecimentos.

— Ah, sim! Senhor Daniel.

— Então, eu pesquisei algumas coisas aqui sobre o que nós falamos, e não achei nada de mais. Inclusive, não tem nada na internet sobre o tal Ryan Carlton

— Bem, sinceramente não sei o que pode ser isso, mas você não quer vir aqui em casa agora? Eu te mostro os documentos que tenho aqui, ou se achar melhor eu vou aí.
Daniel parou por alguns segundos, suspirou afagando a testa com o polegar e indicador da mão esquerda.

— Certo, eu vou aí então — “Jamais eu deixaria um cara estranho vir na minha casa” — Me passa teu endereço.

— Tudo bem.

Em três horas Daniel estava no caminho para a casa de Robert, que ficava num bairro esquisito, cheio de sacos de lixo nas calçadas, carros velhos e enferrujados, as pessoas que passavam pareciam estranhas e estavam meio sujas também. Ele realmente não é bem sucedido. Virou à direita e encontrou a casa.

Parado em frente, Daniel desceu do carro e seguiu em direção à entrada. Não havia campainha para ser tocada, então ele apenas bateu na porta.

— Olá!?

— Pode entrar! — ouviu Robert dizendo de dentro da casa.

Assim Daniel fez. Empurrou a porta para dentro e entrou. Por dentro a casa era ainda mais esquisita do que por fora. As paredes estavam mofadas, os móveis velhos e quebradiços. Havia papéis jogados pelo chão e a iluminação era fraca. Na sala de estar, não havia lâmpada no teto, apenas um abajur ligado sobre um banquinho. “Nossa, acho que devia ter chamado ele pra ir na minha casa, a final de contas”. Um som estranho chamou sua atenção. Era um som de algo sendo derrubado.

— Robert? Que barulho foi esse?

— Não se preocupe, eu estava juntando os documentos e esbarrei nos livros, desculpe — Robert respondeu, com a voz ao longe — Sente-se em algum lugar, se quiser.

— Tá legal. — “Tá louco, não consigo enxergar um sofá em nenhum lugar e não vou arriscar minha saúde sentando nesse chão”, decidiu ficar de pé mesmo.

O abajur apagou-se, juntamente com todas as fontes de luz visíveis da sala, deixando tudo no mais completo e absoluto breu. “Certo, isso me pegou desprevinido”. A lâmpada do corredor se acendeu e ficou piscando, pendurada no fio do teto, balançando pra lá e pra cá. Daniel olhou para o corredor, ao mesmo tempo um vulto passou por trás de si ruidosamente. Ao virar-se para trás, o abajur estava aceso, caído no chão, e contra a luz estava o que apenas poderia ser interpretado como uma silhueta.

A silhueta era de estatura mediana, um pouco mais baixa que Daniel (que media apenas 1,68m), mas os braços eram grandes o suficiente para tocar no chão, finos como gravetos, assim como as perninhas curtas. O tronco era em formato semelhante a um trapézio, e a cabeça não era totalmente visível, mas os olhos eram claramente avermelhados.

A “coisa” (como Daniel resolvera chamá-la), soltou um som gutural, parecido com grunhidos, mas era consistentes, quase como os urros coerentes dos chimpanzés, mas mais comedidos. Em seguida ao som da criatura, Robert veio caminhando de lugar algum para junto dela.

— O que é isso aí do seu lado, Robert? — Daniel indagou, esperando que fosse um macaco estranho.

— Ele? Não se preocupe com ele — Robert se aproximou, suas iris estavam saltando entre azul, castanho e vermelho, e num segundo, Daniel não se mexia mais, todo o seu corpo estava paralisado, seus sentidos ainda estavam ativos, pois continuava vendo e ouvindo tudo ao redor, mas não conseguia falar.

Os momentos seguintes foram registros de sua visão e audição, a criatura pulou em meio a escuridão na direção de Daniel, grunhindo e arranhando com força o corpo dele, as mordidas em seu braço esquerdo arrancavam nacos de carne que ardiam e doíam profundamente, nas costas da criatura, as asinhas de couro e ossos sofriam espasmos, a pele fina e rosada demonstrava os caminhos venosos dentro de si, e o sangue de Daniel manchava o corpo franzino da coisa.

A última coisa que Daniel viu foram os olhos vermelhos da criatura quando esta começou a comer seu rosto.

Quando Ela Se Foi

Quando ela se foi,

o mundo ficou cinza.

Depois ficou vermelho e então azul.

Por muito tempo ficou azul.

Muito de mim queria voltar ao vermelho,

acompanhá-la em sua partida, quem sabe.

Mas então o azul se intrometeu,

e tudo ficou roxo.

Tudo parecia doer profundamente,

qualquer coisa era como um hematoma,

e as parcas feridas já em cicatrização

retornaram a ficarem vermelhas.

Então ela se foi.

Mais uma vez o cinza reinou,

sobre todo o vermelho e roxo, o cinza reinou.

Chovia todos os dias, mesmo que eu gostasse,

não era agradável ouvir cada gota dizendo, gritando

o quão pequenos e impotentes somos nós.

Cada minúscula gota, marcava mais um passo em direção ao abismo.

Então o amarelo surgiu,

onde já haviam o azul e o vermelho desaparecido.

Lentamente os três voltaram-se a reconstituir cada pedaço de cinza.

Então, conte os seus pecados,

Diga-os em voz alta o suficiente para que só você escute.

Quando ela se foi,

tudo o que o mundo levou foram cores.

E quando ela se foi,

Tudo o que o mundo levou foram dores.

Eu não chorei quando ela se foi,

talvez esteja seco demais para isso,

ou talvez muito deslocado da realidade.

Mas certamente, quando começar a chover,

Tudo irá embora,

e neste dia saberei que jamais retornará.

Mas quando ela voltar,

eu saberei que jamais partirá novamente.

Ensaio sob a Clausura

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Tenho, particularmente, muitas quimeras, centenas aliás. Todas pequeninas, ou nem todas, a esmagadora maioria sem exagero. A maior delas é tão grande quanto a vastidão do nada, e tão duradoura quanto. A menor, no entanto, é uma pantera voraz.

A primeira pessoa é tão confidente, tão suscetível a vulnerabilidade.

A segunda, quase em desuso, ainda permanece sobre das limitações da primeira. E a terceira, ah… É o alvo, sempre foi e sempre vai ser, até que todos se separem e se esqueçam, bem como não se lembravam antes do encontro nos primórdios da existência. Eu, Tu e Ele, ao nascer de um, outro vem ligado, e ao terceiro e este ao iniciante, não obstante, não podem estar juntos, exceto a casos e acasos.

Loucura e esperanças presas unidas em fios de cabelo sobre hastes de papel, um ciclo finda e outro surge, no primeiro deles, em que tudo realmente começa, já haviam se passado oito anos, e em apenas dois já fomos lançados ao jogo da sorte e do flerte, em mais um, lá estava Fortuna, jogando mais uma vez, e agora, ainda não se cansou. Mas os deuses não gostam de nós, talvez seja por isso que a água é transparente.

Tudo o que se vê é seu próprio reflexo, esguio e maleável, que, porém, esvai-se facilmente, foge, esconde-se em cavernas e abaixo de muitas terras. Mas nada dura para sempre, e evapora, ao chegar muito fundo em si mesmo,emergindo novamente na superfície, e mais além acima. Entretanto, nada é infinito, e solidifica-se uma vez mais, descendo ao ponto de início e fria, para só então, com o calor que trespassa muralhas, tornar-se maleável e corrente de novo.

Conjecturas

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Me mudei para mais perto do centro. Era um lugar legal, mesmo, exatamente como eu me lembrava. Ou quase igual. Quando eu cheguei pela segunda vez, tinha um parque bem grande colocado onde deveria ser apenas mais uma das muitas praças da cidade (onde eu costumava brincar com meus coleguinhas, nos escorregadores e balanços). Não fui muito com a cara do parque a primeira vista, ele tinha umas árvores de cores diferentes, muitas num tom alaranjado que eu não sou tão chegado, ou mesmo de um verde meio esquisito. Mas deixei passar, afinal, eu já tinha uma parte preferida do bairro -não era como se eu fosse simplesmente trocar de área- e foi aquela única vez. Daí eu troquei de área. Assim, por livre e espontânea vontade, decidi mudar, ser um pouco menos ranzinza e dar uma chance pro maldito parque. Gostei do que vi, as árvores eram mais bonitas vendo de perto (ainda não curto muito laranja ou aquele verde esquisito), e todo o parque tinha um ar jovial e aventuresco que era raro de se ver. Claro que a máxima ainda funciona, quem já viu um parque já viu todos, mas esse tinha alguma coisa a mais: um banco. Venho me referindo ao lugar como parque, mas não haviam estradinhas de tijolos. Só gramado, um lago no centro e árvores, era tudo que tinha. Tudo e um banco. Não era nada rebuscado, como alguns bancos que já havia visto, mas também não era aquela porcariazinha que existe em muitos parques fuleiros que tem por aí. Simples, feito de madeira, com alguma coisa em ferro, envernizado e praticamente novo, foi o que eu vi pela primeira vez. Logo pensei que seria um bom lugar para passar os dias lendo, mas meus planos foram frustrados quando percebi que alguém já estava sentado lá no dia em que trouxe meu livrinho à tira-colo, o que não durou tanto, para falar a verdade, rapidamente a pessoa saiu, me dando carta branca pra sentar. Chegando mais perto do banco, percebi que tinha algumas marcas nele, não muitas, mas eram profundas. Pareceu a mim que alguém o marcou com estilete ou qualquer coisa do tipo, mas ignorei e me sentei, de qualquer forma. Peguei meu ipod, coloquei os fones, abri o livro e tive a melhor experiência de toda a minha vida até aquele momento. Tanto que voltei lá todos os dias durante nove meses. Meu emprego estava numa boa, desenhar estampas de camisetas é praticamente o trabalho dos meus sonhos, e eu só tenho que pegar no pesado de fato durante umas duas horas, o resto é “processo criativo” (que eu adoro), logo, tive tempo suficiente para me deleitar com a beleza do parque enquanto lia tranquilo. Devo dizer que me tornei uma pessoa melhor indo lá, mesmo o lugar sendo muito frequentado, eu podia me sentir sozinho, mas não o sozinho melancólico que todo mundo sente, mas um sozinho diferente, quase uma solidão compartilhada, como um casal cujas mentes estão em sincronia, e mesmo no meio de uma multidão, separados, eles sabem exatamente onde o outro está, e por vezes, não ligam tanto pro fato de estarem a sós quando na verdade não estão. Era assim que eu me sentia, tirando o fato de que eu nunca tive ninguém mesmo. A minha sintonia era, posso garantir com certeza hoje, com o parque em si. Era como se ele falasse diretamente a mim, mas eu estou louco então não importa. Tudo estava maravilhoso, só que o inverno veio. A neve que chegou foi em quantidade muito maior que dos invernos anteriores na cidade inteira, tanto que cobriu quase um metro de altura em alguns pontos. E a temperatura ficou baixa demais para permanecer sequer por meia hora na rua. Fiquei impossibilitado de voltar para meu parque querido. Só que o inverno passou, e quando finalmente consegui uma chance de voltar lá, após uma estação tenebrosamente gelada, aquela pessoa já estava em seu lugar do primeiro dia, então eu dei meia volta e rumei para casa, convencido de duas coisas:

-Aquela pessoa vai sair dali de novo. Algum dia. Para sempre;

-O inverno pode acabar e posso até encontrar outros bancos naquele mesmo parque, mas aquele lugar jamais estará vago para mim novamente.